Dr. Vinícius Alvarenga Pereira — ortopedia de pé e tornozelo Dr. Vinícius Alvarenga PereiraOrtopedia · Pé e Tornozelo Agendar agora
Antepé · nervo digital plantar

Neuroma de Morton: a dor que queima entre os dedos.

Apesar do nome, não é um tumor. É um nervo do antepé que engrossa por ficar comprimido entre os ossos — e produz uma queixa bem característica: queimação, choque ou a sensação de estar pisando numa pedra, ou com a meia dobrada dentro do sapato.

O que é o neuroma de Morton

Entre as cabeças dos metatarsos passam os nervos que levam sensibilidade aos dedos. Quando um desses nervos é comprimido de forma repetida, o tecido ao redor dele reage e engrossa. Esse espessamento é o que chamamos de neuroma de Morton.

O nome confunde: não é câncer e não é um tumor. Tecnicamente não é nem um neuroma verdadeiro — o que se encontra é fibrose ao redor do nervo, e não uma multiplicação de células nervosas. É uma neuropatia por compressão, parente distante da síndrome do túnel do carpo na mão.

O local mais comum é o espaço entre o terceiro e o quarto dedo; em segundo lugar, entre o segundo e o terceiro. Isso explica por que a dor quase sempre é descrita “entre os dedos”, e não em cima de um osso.

Como a dor costuma se apresentar

A descrição dos pacientes é tão parecida que muitas vezes o diagnóstico começa a se desenhar na própria conversa:

  • Queimação ou choque na sola do antepé, que sobe para dois dedos vizinhos
  • Sensação de pisar numa pedra, num caroço ou numa dobra da meia
  • Dormência ou formigamento nas pontas dos dedos envolvidos
  • Piora com sapato fechado, apertado, de bico fino ou com salto
  • Alívio quando você tira o sapato e massageia o antepé — um sinal bem sugestivo
  • Às vezes um estalo ou clique que o próprio paciente percebe ao apertar o pé

A dor raramente aparece em repouso, deitado. Ela é de carga: caminhar, ficar em pé, calçar.

O que o exame clínico mostra

O exame é a parte mais importante. Dois achados orientam bastante:

  • Compressão do espaço entre os dedos — apertar o espaço entre as cabeças dos metatarsos com o polegar e o indicador costuma reproduzir exatamente a sua dor. Quando esse teste é negativo, o neuroma se torna bem menos provável
  • Clique de Mulder — ao comprimir o antepé lateralmente e apalpar o espaço, sente-se (e às vezes ouve-se) um estalo. Quando o próprio paciente já percebia esse clique antes da consulta, isso reforça bastante a hipótese

Outros sinais famosos, como “pisar numa pedra” e “queimação”, são frequentes, mas sozinhos não confirmam nada: aparecem também em outras causas de dor no antepé. Por isso o exame não é uma pergunta só — é um conjunto.

Quais exames ajudam — e qual é o limite deles

O ultrassom e a ressonância magnética conseguem mostrar o espessamento do nervo, e a ultrassonografia ainda permite examinar o pé em movimento. São úteis, sobretudo para diferenciar de outras causas de dor no mesmo lugar.

Mas há uma armadilha conhecida: achados de imagem compatíveis com neuroma aparecem também em pessoas sem dor nenhuma. Ou seja, a imagem confirma ou afasta uma suspeita — ela não substitui o exame clínico nem faz o diagnóstico sozinha.

O que mais se confunde com o neuroma

Dor na base do segundo dedo pode ser lesão da placa plantar; dor que piora ao correr e some no repouso pode ser fratura por estresse do metatarso; dor difusa sob as cabeças dos metatarsos pode ser metatarsalgia por sobrecarga. Como o tratamento de cada uma é diferente, vale a pena separar bem antes de tratar.

Tratamento sem cirurgia — por onde se começa

A maioria dos pacientes começa (e muitos terminam) aqui. O raciocínio é simples: se a dor vem de compressão, o primeiro passo é tirar a compressão.

  • Calçado de bico largo e salto baixo — a medida isolada mais importante. Salto alto e bico fino empurram as cabeças dos metatarsos uma contra a outra, exatamente sobre o nervo
  • Palmilha com apoio retrocapital, que afasta as cabeças dos metatarsos e alivia a pressão sobre o nervo
  • Ajuste temporário das atividades que disparam a dor, sem parar tudo
  • Controle da dor conforme orientação médica
  • Infiltração com corticoide e anestésico, em casos selecionados

Sobre a infiltração, vale a informação honesta: a evidência disponível é de qualidade limitada e mostra benefício modesto e nem sempre duradouro. Quando indicada, há um detalhe técnico que faz diferença — a infiltração guiada por ultrassom tende a doer menos depois do que a feita às cegas. E ela não é isenta de efeitos: pode ocorrer afinamento da pele, clareamento do local e atrofia do coxim gorduroso plantar, o amortecimento natural da sola. Por isso não se repete indefinidamente.

Quando a cirurgia entra — e o que ela custa

A cirurgia é considerada quando a dor persiste apesar de um tratamento conservador bem conduzido e passa a limitar o que você precisa fazer. Não existe indicação por imagem: opera-se o paciente, não o exame.

A técnica mais utilizada é a retirada do segmento espessado do nervo, habitualmente por uma incisão no dorso do pé. Há também a opção pela planta, e a literatura sugere que as duas têm taxas semelhantes de complicação — mudam os tipos: a via plantar tende a dar mais problema de cicatriz, que é justamente onde o pé recebe carga.

O que você precisa saber antes de decidir

Ao retirar o segmento do nervo, fica uma área permanente de dormência entre os dois dedos. Isso não é complicação: é consequência esperada da cirurgia, e a maioria das pessoas convive bem com ela. Mas precisa ser dito antes, e não depois. Existe ainda a possibilidade de dor residual ou de formação de um neuroma na extremidade cortada. Toda cirurgia tem riscos — desconfie de quem promete resultado garantido.

Quando procurar avaliação

  • Queimação ou choque entre os dedos que já dura algumas semanas
  • Dormência que aparece com frequência ou começa a persistir
  • Dor que obriga a tirar o sapato durante o dia ou a mudar de calçado
  • Dor que impede trabalhar, caminhar ou treinar
  • Sensação de pedra no sapato que não melhora com calçado mais largo
Procure atendimento sem demora

Dor no antepé com febre, vermelhidão que se espalha, calor local ou ferida aberta — especialmente se você tem diabetes — precisa de avaliação imediata. Em emergência, procure o pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU).

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre neuroma de morton.

Neuroma de Morton é câncer?

Não. Apesar do nome, não é tumor nem lesão maligna. É o espessamento do tecido ao redor de um nervo do antepé, causado por compressão repetida — uma neuropatia compressiva, sem relação com câncer.

Dá para tratar sem cirurgia?

Na maioria dos casos o tratamento começa sem cirurgia, com mudança de calçado, palmilha adequada, ajuste de carga e, em casos selecionados, infiltração. A cirurgia é reservada para quem não melhora com esse caminho bem conduzido.

A palmilha resolve o neuroma?

A palmilha não desfaz o espessamento do nervo, mas pode reduzir a pressão sobre ele e aliviar bastante a dor. Funciona melhor combinada com calçado de bico largo — sozinha, dentro de um sapato apertado, rende pouco.

Quantas infiltrações posso fazer?

Não existe um número fixo, e menos é melhor. A infiltração com corticoide pode causar afinamento da pele, clareamento local e atrofia do coxim gorduroso da sola, que é o amortecimento natural do pé. Por isso a indicação é criteriosa e a repetição, limitada.

Vou ficar com o pé dormente depois da cirurgia?

Quando o segmento do nervo é retirado, fica uma área de dormência permanente entre os dois dedos envolvidos. É um efeito esperado da técnica, não uma complicação — e é explicado antes da decisão, para que você escolha sabendo.

Posso continuar correndo?

Em geral não é preciso parar completamente. Costuma-se ajustar volume, calçado e superfície, mantendo o que não provoca dor. Tênis com câmara anterior larga costuma fazer diferença imediata.

Para colegas médicos Neuroma de Morton — o que a evidência sustenta hoje Revisão da literatura com as referências no fim — 6 fontes. Linguagem técnica.

Síntese narrativa a partir de revisão sistemática Cochrane, meta-análises e revisão de conceitos atuais, com as referências numeradas ao fim. O objetivo é separar o que tem suporte metodológico do que é prática consagrada sem evidência forte.

Definição e substrato anatomopatológico

Trata-se de neuropatia compressiva do nervo digital plantar comum, e não de neoplasia. O achado histológico é fibrose perineural com espessamento do nervo, motivo pelo qual o termo “neuroma” é consagrado mas impreciso. O terceiro espaço intermetatársico é o mais acometido, seguido do segundo [4].

Diagnóstico clínico — o que a acurácia mostra

Uma revisão sistemática de acurácia diagnóstica (9 estudos, QUADAS-2) trouxe números que valem para a consulta [3]:

  • Clique percebido pelo próprio paciente: especificidade 0,96 e razão de verossimilhança positiva 13,14 — quando o paciente relata espontaneamente, o achado praticamente confirma
  • Teste modificado de sensibilidade do espaço interdigital (compressão polegar–indicador): sensibilidade 0,96, razão de verossimilhança negativa 0,04 — serve bem para afastar
  • “Pisar em pedra”: sensibilidade 43–57%, especificidade 48–52% — isoladamente, pouco discriminante

A limitação declarada pelos autores é relevante: apenas um estudo tinha baixo risco de viés, e vários incluíram poucos ou nenhum paciente sem a condição, o que superestima a acurácia. Os números orientam o raciocínio; não substituem o conjunto do exame.

Tratamento não cirúrgico

A meta-análise de intervenções não cirúrgicas (25 estudos, 7 ECR) encontrou redução de dor com corticoide em relação ao controle na EVA, além de sinal favorável para manipulação/mobilização; a terapia por ondas de choque não mostrou diferença consistente [2].

A revisão Cochrane de 2024, mais restritiva (6 ECR, 373 participantes, nenhum com baixo risco de viés em todos os domínios), moderou esse quadro [1]:

  • Corticoide + anestésico versus anestésico isolado: pouca ou nenhuma diferença em dor aos 3–6 meses (DM −6,31 mm; IC95% −14,23 a 1,61) e em função — evidência de baixa certeza
  • Qualidade de vida também sem diferença relevante (certeza moderada)
  • Infiltração guiada por ultrassom versus não guiada: provável redução de dor aos 6 meses (DM −15,01 mm; IC95% −27,88 a −2,14) e melhora funcional — certeza moderada. É o achado de maior aplicabilidade prática da revisão
  • Eventos adversos do corticoide: atrofia cutânea 3,9%, hipopigmentação 3,9% e atrofia do coxim gorduroso plantar 2,6% — nenhum no grupo anestésico isolado

Um ECR brasileiro comparou ácido hialurônico com corticoide, ambos guiados por ultrassom, e encontrou desfechos de dor e função melhores com o corticoide em vários momentos do seguimento de 12 meses — reservando o hialurônico aos casos com contraindicação ao corticoide [6].

Leitura prática

A evidência não sustenta infiltração como resolutiva, mas sustenta que, quando indicada, ela seja guiada por ultrassom. E sustenta parcimônia na repetição, pela atrofia do coxim plantar — cuja perda é definitiva e piora justamente a metatarsalgia que se queria tratar.

Tratamento cirúrgico

A neurectomia por via dorsal é a mais difundida [4]. Meta-análise comparando vias dorsal e plantar (5 estudos; 189 pés dorsal, 158 plantar) não encontrou diferença em eventos adversos globais, problemas sensitivos, infecção de ferida ou TVP; a via plantar associou-se a mais problemas cicatriciais (OR 2,90; IC95% 1,40 a 5,98) [5]. Os autores classificam a evidência como de baixa qualidade e tratam a conclusão como geradora de hipótese.

O ponto de consentimento informado permanece o mesmo: a neurectomia produz área de anestesia permanente no espaço interdigital correspondente, e há risco de dor residual e de neuroma de coto. Seleção do paciente e aconselhamento pré-operatório são descritos como determinantes do resultado [4].

O que segue em aberto

  • Ausência de ECR de boa qualidade comparando tratamento conservador estruturado com cirurgia
  • Heterogeneidade de desfechos entre estudos, que impede meta-análise de EVA e AOFAS em vários casos [5]
  • Papel ainda mal definido de técnicas percutâneas e de crioneurólise fora de séries selecionadas
  • Falta de consenso sobre o valor da imagem na indicação cirúrgica, dada a prevalência de achados em assintomáticos

Referências

  1. 1Matthews BG, Thomson CE, Harding MP, McKinley JC, Ware RS. Treatments for Morton's neuroma. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2024; 2:CD014687. texto completo no PMC texto livre
  2. 2Matthews BG, Hurn SE, Harding MP, Henry RA, Ware RS. The effectiveness of non-surgical interventions for common plantar digital compressive neuropathy (Morton's neuroma): a systematic review and meta-analysis. Journal of Foot and Ankle Research. 2019; 12:12. texto completo no PMC texto livre
  3. 3Pitcher M, Moulson A, Pitcher D, Herbland A, Cairns MC. Diagnostic accuracy of subjective features and physical examination tests for Morton neuroma: a systematic review. Foot & Ankle Orthopaedics. 2024; 9:24730114241291055. texto completo no PMC texto livre
  4. 4Bhatia M, Thomson L. Morton's neuroma — current concepts review. Journal of Clinical Orthopaedics and Trauma. 2020; 11(3):406-409. texto completo no PMC texto livre
  5. 5Zhang J, Li J, Cai W, Zheng K, Huang X, Rong X, Li Q. Effect of surgical approach on the treatment of Morton's neuroma: a systematic review and meta-analysis. Journal of Foot and Ankle Research. 2023; 16:57. texto completo no PMC texto livre
  6. 6Ferreira GF, Lewis TL, Fernandes TD, Pedroso JP, Arliani GG, Ray R, Patriarcha VA, Vieira Filho M. Ultrasound-guided infiltration with hyaluronic acid compared with corticosteroid for the treatment of Morton's neuroma. The Bone & Joint Journal. 2024; 106-B(10):1093-1099. registro do artigo (DOI)

Revisão narrativa, sem intenção de diretriz. Cada referência foi conferida no registro do PubMed/Europe PMC e o link testado; “texto livre” significa que o texto completo abre sem pagamento no PubMed Central, o que não implica licença de reuso. Revisada em 19 de setembro de 2026 por Dr. Vinícius Alvarenga Pereira — CRM-MG 45.807 · RQE 36806 · TEOT 13.056 · TECPT 1.040.

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Este texto é informativo e não substitui a consulta. O exame clínico é o que define o diagnóstico e a melhor conduta para você.

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