O que é o neuroma de Morton
Entre as cabeças dos metatarsos passam os nervos que levam sensibilidade aos dedos. Quando um desses nervos é comprimido de forma repetida, o tecido ao redor dele reage e engrossa. Esse espessamento é o que chamamos de neuroma de Morton.
O nome confunde: não é câncer e não é um tumor. Tecnicamente não é nem um neuroma verdadeiro — o que se encontra é fibrose ao redor do nervo, e não uma multiplicação de células nervosas. É uma neuropatia por compressão, parente distante da síndrome do túnel do carpo na mão.
O local mais comum é o espaço entre o terceiro e o quarto dedo; em segundo lugar, entre o segundo e o terceiro. Isso explica por que a dor quase sempre é descrita “entre os dedos”, e não em cima de um osso.
Como a dor costuma se apresentar
A descrição dos pacientes é tão parecida que muitas vezes o diagnóstico começa a se desenhar na própria conversa:
- Queimação ou choque na sola do antepé, que sobe para dois dedos vizinhos
- Sensação de pisar numa pedra, num caroço ou numa dobra da meia
- Dormência ou formigamento nas pontas dos dedos envolvidos
- Piora com sapato fechado, apertado, de bico fino ou com salto
- Alívio quando você tira o sapato e massageia o antepé — um sinal bem sugestivo
- Às vezes um estalo ou clique que o próprio paciente percebe ao apertar o pé
A dor raramente aparece em repouso, deitado. Ela é de carga: caminhar, ficar em pé, calçar.
O que o exame clínico mostra
O exame é a parte mais importante. Dois achados orientam bastante:
- Compressão do espaço entre os dedos — apertar o espaço entre as cabeças dos metatarsos com o polegar e o indicador costuma reproduzir exatamente a sua dor. Quando esse teste é negativo, o neuroma se torna bem menos provável
- Clique de Mulder — ao comprimir o antepé lateralmente e apalpar o espaço, sente-se (e às vezes ouve-se) um estalo. Quando o próprio paciente já percebia esse clique antes da consulta, isso reforça bastante a hipótese
Outros sinais famosos, como “pisar numa pedra” e “queimação”, são frequentes, mas sozinhos não confirmam nada: aparecem também em outras causas de dor no antepé. Por isso o exame não é uma pergunta só — é um conjunto.
Quais exames ajudam — e qual é o limite deles
O ultrassom e a ressonância magnética conseguem mostrar o espessamento do nervo, e a ultrassonografia ainda permite examinar o pé em movimento. São úteis, sobretudo para diferenciar de outras causas de dor no mesmo lugar.
Mas há uma armadilha conhecida: achados de imagem compatíveis com neuroma aparecem também em pessoas sem dor nenhuma. Ou seja, a imagem confirma ou afasta uma suspeita — ela não substitui o exame clínico nem faz o diagnóstico sozinha.
O que mais se confunde com o neuroma
Dor na base do segundo dedo pode ser lesão da placa plantar; dor que piora ao correr e some no repouso pode ser fratura por estresse do metatarso; dor difusa sob as cabeças dos metatarsos pode ser metatarsalgia por sobrecarga. Como o tratamento de cada uma é diferente, vale a pena separar bem antes de tratar.
Tratamento sem cirurgia — por onde se começa
A maioria dos pacientes começa (e muitos terminam) aqui. O raciocínio é simples: se a dor vem de compressão, o primeiro passo é tirar a compressão.
- Calçado de bico largo e salto baixo — a medida isolada mais importante. Salto alto e bico fino empurram as cabeças dos metatarsos uma contra a outra, exatamente sobre o nervo
- Palmilha com apoio retrocapital, que afasta as cabeças dos metatarsos e alivia a pressão sobre o nervo
- Ajuste temporário das atividades que disparam a dor, sem parar tudo
- Controle da dor conforme orientação médica
- Infiltração com corticoide e anestésico, em casos selecionados
Sobre a infiltração, vale a informação honesta: a evidência disponível é de qualidade limitada e mostra benefício modesto e nem sempre duradouro. Quando indicada, há um detalhe técnico que faz diferença — a infiltração guiada por ultrassom tende a doer menos depois do que a feita às cegas. E ela não é isenta de efeitos: pode ocorrer afinamento da pele, clareamento do local e atrofia do coxim gorduroso plantar, o amortecimento natural da sola. Por isso não se repete indefinidamente.
Quando a cirurgia entra — e o que ela custa
A cirurgia é considerada quando a dor persiste apesar de um tratamento conservador bem conduzido e passa a limitar o que você precisa fazer. Não existe indicação por imagem: opera-se o paciente, não o exame.
A técnica mais utilizada é a retirada do segmento espessado do nervo, habitualmente por uma incisão no dorso do pé. Há também a opção pela planta, e a literatura sugere que as duas têm taxas semelhantes de complicação — mudam os tipos: a via plantar tende a dar mais problema de cicatriz, que é justamente onde o pé recebe carga.
Ao retirar o segmento do nervo, fica uma área permanente de dormência entre os dois dedos. Isso não é complicação: é consequência esperada da cirurgia, e a maioria das pessoas convive bem com ela. Mas precisa ser dito antes, e não depois. Existe ainda a possibilidade de dor residual ou de formação de um neuroma na extremidade cortada. Toda cirurgia tem riscos — desconfie de quem promete resultado garantido.
Quando procurar avaliação
- Queimação ou choque entre os dedos que já dura algumas semanas
- Dormência que aparece com frequência ou começa a persistir
- Dor que obriga a tirar o sapato durante o dia ou a mudar de calçado
- Dor que impede trabalhar, caminhar ou treinar
- Sensação de pedra no sapato que não melhora com calçado mais largo
Dor no antepé com febre, vermelhidão que se espalha, calor local ou ferida aberta — especialmente se você tem diabetes — precisa de avaliação imediata. Em emergência, procure o pronto-socorro ou ligue 192 (SAMU).